Cinco da manhã.
Já é tarde (ou cedo), mas sei que tenho que escrever.
Daqui umas horas chegará a P. e vai ser bom tê-la aqui. Tenho a sensação (e confirmação) que ela sente mais do que eu, e se calhar por isso é que tenho estado um pouco apreensiva desde que ela esteve cá da última vez. Confesso que estou estranhamente mais calma, e estranhamente mais confusa. Acho que afinal posso não querer nada, mas isto podem ser só os nervos à flor da pele a tentar ofuscar-me da saída deste labirinto. Demasiado poético. Podia acobardar-me por não ter a certeza, e simplesmente não acontecer nada. Mas entre arrepender-me de ter e não ter feito, prefiro fazer e ser mais uma história com que posso preencher a minha vida. No meu sonho, beijámo-nos e senti-me estranha. Medo de primeiros beijos. Será que vou gostar? Será que não?
Sei que estou calma. Sei que é normal. Sei que não faz mal. Tenho genuinamente medo de magoá-la caso não sinta algo mais com este beijo. Tenho medo de continuar e enganar-me a mim própria, dizendo que quero, quando não tenho a certeza. Vou tentar ser o mais transparente possível, não é possível fazê-lo de outra maneira. E até agora temos conseguido.
Sei que gosto de rapazes, isso é a minha certeza. E esta incerteza misturada com curiosidade poderá não passar disto. Ou poderá acabar por ser um caso isolado. Apaixonamo-nos por pessoas, e isso é o que importa. Senti uma ligação com a P. desde o primeiro dia que a conheci. Não que isso possa significar que tenhamos que ter algo mais romântico ou sexual, mas para descartar a hipótese, há que testá-la primeiro. Independentemente do que acontecer, acho que uma amizade e certa cumplicidade espero conseguirmos manter.
Vamos sair para o Bairro e não sei ainda se vamos estar juntas antes. Álcool ajuda sempre, por isso espero contar com a ajuda da caipirinha e de um shot ou dois. Sei que sozinha nessa aventura não vou estar. Ela vai estar comigo. E vai acontecer.
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